sábado, 11 de agosto de 2012

Sempre Pablo Neruda

VELHO CEGO, choravas quando tua vida era
boa, quando possuías nos teus olhos o sol:
Mas se o silencio já chegou, o que é que esperas,
O que é que esperas, cego, desta maior dor?

Em teu rincão pareces menino nascido
Sem os pés para a terra, sem olhos para o mar
E como os animais dentro da noite cega
- sem dia e sem crepúsculo - cansas de esperar.

Porque se conheces o caminho que leva
Em dois ou três minutos para a vida nova,
Velho cego, o que esperas, que podes esperar?

E se pela amargura mais dura e destino,
animal velho e cego sem caminho e tino
eu que tenho dois olhos saberei te ensinar

(Pablo Neruda, do livro Crepusculário)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

James Joyce deu o que falar esta semana!

Esta semana tivemos uma troca de farpas entre o crítico literário do The Guardian e Paulo Coelho.
O escritor brasileiro disse em uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo que Ulysses, a grande obra de James Joyce, era só estilo, e que se dissecássemos a obra teríamos apenas um "twit".
Esta entrevista deu uma sacudida nos fãs de Joyce, que se indignaram aos milhares no Facebook.
Criticando o autor brasileiro, o crítico inglês Samuel Johnson do The Guardian disse que "um mosquito pode picar um cavalo, mas o cavalo continuará sendo um cavalo, e o mosquito, nada mais do que um mosquito."
Farpas de lado, temos que render homenagem à obra.
A ação de ULISSES transcorre em Dublin num único dia, 16 de junho de 1904, e é narrada através de um prelúdio em três partes, um núcleo de doze capítulos e um final tripartido. A divisão ternária, em perfeita simetria, evoca as significações cabalísticas do três. Estudos receentes de lingüística, com auxílio de computador, dão ULISSES como aobra de estrutura matematicamente mais perfeita de toda a literatura. A linguagem utilizada por Joyce, que vai do poema à ópera, do sermão à farsa, contém não apenas termos usuais - da prosa clássica à mais grosseira gíria -, mas também elementos criados pelo escritor com base em seus conhecimentos de latim, grego, sânscrito e uma vintena de idiomas modernos. Fazendo um paralelo com a Odisséia de Homero, Joyce cria uma viagem experimental ao mundo de hoje, obtendo vigorosa síntese de suas descobertas científicas, seus problemas sociais, religiosos, estéticos, sexuais. As personagens centrais correspondem aos protagonistas da epopéia grega: Mary Bloom, esposa do herói, é Penélope; Stephen Dedalus é Telêmaco, Leopold Bloom é Ulisses. Na versão de Joyce, a imagem de Ulisses é a de um ser arrasado, traído pela mulher, totalmente distinto do invencível herói criado por Homero.

terça-feira, 13 de março de 2012

O que existe entre nós e nossos interlocutores

Para os amantes de um bom livro, nada melhor e mais revigorante do que uma boa conversa sobre nossas impressões  "daquele livro".
Mas tem coisa mais chata do que quando você está falando o interlocutor fica mexendo no seu celular?

por isso vale a pensa refletir sobre este texto da Claudia Matarazzo

Desligar é preciso
O espaço virtual é cada vez mais ocupado, frequentado, comentado. Ele hoje é tão real que, em pouco tempo, a fronteira e o nome para diferenciá-lo do mundo real serão imperceptíveis.
E a velocidade da evolução das novas tecnologias pede frequentes ajustes na chamada “netiqueta”, justamente para refletir e regular as relações e a comunicação virtual.
Pode reparar: a conversa olho no olho, agora, é interrompida por frequentes olhares de saudade para o tablet ou celular — sempre à vista e à mão em posição privilegiada, como um terceiro hóspede. É frustrante. O celular virou um companheiro praticamente inseparável, e tem sido o grande vilão quando se trata de extrapolar. As pessoas que estão com você ao vivo merecem mais atenção do que o aparelho. É simples assim, e se não consegue desligá-lo quando necessário, comece a se exercitar para dominar a ansiedade.
Sim, eu sei que pouca gente faz isso. É por isso que vemos verdadeiras barbaridades em público, e a promiscuidade impera nas comunicações.
Pense nisso e faça a diferença.
O Facebook, com milhões de usuários, desenvolveu-se de forma muito particular. Assim, é bom estar familiarizado com certos “modos de fazer”. Por exemplo: não peça a alguém para ser seu amigo mais de uma vez. E não se ofenda se alguém não te aceitar. É um direito. Tampouco faça pedidos de amizade a amigos dos seus amigos se você não os conhece. Alguns usuários medem seu prestígio pela quantidade de amigos, mas isso é bobagem. E cuidado com o que postar. Falar mal de alguém pensando que a pessoa não vai saber só porque não está em sua lista de amigos é um enorme engano. É bom lembrar que a elegância passa por tudo, inclusive pela internet e suas redes sociais. Assim, convém ter a noção de que mesmo uma presença virtual implica uma educação real.
Vamos às webcams: hoje, há uma verdadeira compulsão por desvendar intimidades diante de “quanto mais pessoas, melhor”. Ora, as câmeras de segurança de estabelecimentos comerciais, escritórios e prédios públicos já nos mostram em elevadores, dentro dos edifícios e nas ruas. Para que mais exposição? A privacidade e a exclusividade, mais do que nunca, tornaram-se um luxo, e, mais do que isso, uma meta a se perseguir se quisermos ser realmente elegantes.
Em relação ao Twitter, suas mensagens de 140 toques permitem uma comunicação muito mais rápida e dinâmica. Ótimo. Porém, com 140 toques, ou falamos algo sensacional ou é melhor nem teclar. Evite o comentário gratuito ou o que napenas concorda e “paga pau” o tempo todo. Só vale se agregar algo, concorda?
O mundo mudou — e muito — por conta das novas tecnologias. Se para melhor ou pior, só saberemos em mais algumas décadas, pois ainda estamos semi-hipnotizados por essas mudanças que, para quem não nasceu com elas (como eu), ainda parecem magia. No entanto, a mudança na base de valores que regiam nossas vidas até então é visível e até palpável. Se toda essa tecnologia vier a melhorar o relacionamento entre as pessoas (e não apenas facilitar a vida prática), ela terá alçado o seu fim. Mas, para que isso aconteça, é preciso disciplina para que aprendamos a usar e, principalmente, dominar as máquinas e o seu tempo de uso. Não é fácil, pois essas máquinas não têm emoção, não ficam carentes e nem se viciam. Nós, sim. Porém, resta-nos o livre arbítrio, o bom senso e — a nosso favor — a paixão. De modo que é possível usar todas essas novidades com mais benefícios do que prejuízos. Ainda bem.
*ClaudiaMatarazzo