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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

COMPLETAMENTE DENTRO DE MIM




Peguei para ler, quando do lançamento,  o livro FORA DE MIM, de Martha Medeiros, me perguntei quase que imediatamente: será que todos no mundo têm um caso de amor que acontece enorme, preenchendo espaços há muito tempo vazios, mas que a gente tem certeza, desde o primeiro momento, que não vai ser para sempre, e que vai doer, machucar, mas que não conseguiremos dar um passo para trás,  que vamos entrar na história entre o espanto que é apaixonar-se, e a tristeza por ter o conhecimento prévio de que ele, o tão esperado e desejado amor que vai virar a nossa vida do avesso tem prazo de validade?
Desde as primeiras linhas do texto eu pensei: ela roubou a minha história.  Segui lendo o que eu mesma gostaria (deveria?), de ter escrito, tivesse eu o talento dela. É um curto caso de amor intenso, durou dois, valeu por uma vida. Junto com ela por 135 páginas, reli um período de minha própria vida, da minha paixão.
Dizem que Amor é universal, todos, em algum momento da vida se depararão com ele. E sentirão, e viverão as  mesmas etapas: aquela alegria que quase dá vontade de gritar, ou de cantar alto na rua, de partilhar com os passantes, abordá-los para dizer: ei! olhe para a minha vida, eu estou apaixonada, estou amando, sou amada!!!
 Não acredito nisso. Acho que existem pessoas que entram e saem desta vida com quase tudo morno, não querem e não se permitem nunca a experiência de queimar a língua, de rasgar a alma. Escolhem o mais fácil, o menos doloroso. Eu garanto, e ouso dizer que a autora do livro também, não gostaria de chegar aos cinquenta, lá naquela hora em que sabemos  que a jornada está se aproximando do fim,  ainda que restem mais vinte, trinta anos, sem a certeza de que vivi tudo. E que se a vida terminasse ali, naquela hora, levaria a certeza de que tive o melhor e o pior de uma paixão, e que cada dia, cada pranto, cada madrugada, cada riso, tudo valeu.
No livro ela começa contando o melancólico e intenso e silencioso final, diz que sabia que entrava numa viagem sem destino, e que não sabia que doeria tanto. Ela diz que “ninguém pode saber um amor, entender um amor”, mas eu acredito que sabemos sim, mas que isto não nos pararia. Quem quer a vida, entra nela de cabeça, e penso nisso quando ela afirma que viveu dois anos em “constante estado de paixão e luto”, sabendo que em algum momento, aquele avassalamento passaria, e neste momento começaria outra jornada: a de levantar-se para seguir com a vida.
No livro há outros personagens sobre os quais ela diz pouco, e tem que ser assim. O tempo daquela paixão, daquele amor excluiu o resto do mundo. Tudo o mais teve que esperar, tudo diminuiu de tamanho: amigos, filhos. Era a hora daquele amor, de antemão descosturado. Não cabia mais ninguém.
E a retomada da vida é lenta, claudicante, muitas vezes com a estranha sensação de que não vai dar, de que nunca mais vai dar. A autora brilha, como brilha em cada crônica publicada aos domingos. Leio tudo o que ela escreve, sou muito fã de Martha Medeiros, mas neste FORA DE MIM, a verdade é que ela esteve dentro de mim, disse o que eu gostaria de ter dito, e não creio que eu seja a única leitora que sentiu ou se sentirá assim ao lê-la.
Por que escrevi hoje, e não quando o livro saiu? Porque li avidamente da primeira vez, aluguei muitas vezes, afinal o trabalho é este, aqui, alugam-se livros. Mas ele retornou ontem, e foi tudo como da primeira vez: a mesma empatia, o mesmo assombro. Como ela sabe tanto de mim?
Fica o convite para as três pessoas que lêem o blog, ou para os que visitam nossa página do facebook. Não percam. Pode ser também a sua história.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sobre o poeta Mario Cesariny e sobre o tanto que eu sou ignorante

Há textos que são tão bonitos que sempre me custa um bocado vir até este espaço e escrever o que quer que seja, afinal, todo mundo quer ser bom, e eu, amante de toda a palavra escrita, morro de inveja de quem consegue escrever um texto que esclarece e emociona pela forma como é feita esta escrita.
Todos os sábados eu leio o antigo Prosa &Verso do Jornal O Globo, no dia 01 de setembro não foi diferente. Tudo ali me encanta: os artigos, os informes sobre lançamentos de novos livros, enfim, para mim, se nada mais houvesse no jornal que me interessasse , o caderno por si só já seria um bom motivo para ter/ler o jornal. Pois bem,  no VERSO deste sábado havia uma matéria de Michel Gonçalves Mendes, sobre Mario Cesariny, poeta português , que ele chama de “expoente máximo do surrealismo português”, e que é totalmente desconhecido no Brasil.
O artigo todo é bonito demais, mas vi que eu mesma, que gosto tanto dos poetas portugueses também nada sabia sobre ele. Pelo artigo eu soube que ele também pintava, soube que segundo ele deveríamos rir de tudo, que a homossexualidade ( e adorei a forma como disse isto), era um desmesurado desejo de amizade, e que Portugal, por estar no extremo da Europa, não tinha grandes hipóteses como país. Enfim, gostei tanto das coisas que disse que fui buscar as poesias do homem e fiquei, mais uma vez com a certeza da minha enorme ignorância.
Bem, o artigo é maravilhoso, acho que vale a pena procurá-lo e lê-lo, mas encontrei alguns poemas de Mario, e deixo um deles aqui para que o leiam e tenho certeza de que o apreciarão tanto quanto eu.
  poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto   tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


                   Mário Cesariny

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

FACA AFIADA - Bartolomeu Campos Queirós

Trabalhar com livros deveria, primeiramente , fazer de mim alguém mais antenada com os bastidores da Literatura, mas não é o caso. Eu deveria saber mais deste autor, de seu jeito, da forma como criava, mas não foi o caso. Conhecia a obra, mas sabia bem pouco do autor.
Leio compulsivamente, e leio de tudo. De alguns livros gosto tanto que fico triste quando vejo que vão acabar, e os economizo; outros, leio porque faz parte também da função ao locá-los. Não consegui, nestes mais de 20 anos entre os livros não opinar até mesmo jogando contra mim. Muitos associados apreciam imensamente um autor, e lá vou eu, com a minha boca grande, e meto o pau no pobre dizendo do tanto que é raso, do tanto que ele não disse nada, reclamo dos romances melosos, mas numa idade aí, há uns séculos atrás, eu já devo ter gostado. Comecei a vida lendo “Memórias de um Burro” da Condessa de Ségur, foi este, em minha memória, o primeiro livro que li, mas daí para frente devorei tudo o que me caía nas mãos, trocava qualquer presente por um livro.
A leitura para mim continua sendo para me encantar ou para eu reclamar. Este me encantou.
No início do meu segundo casamento, meu marido vinha para casa com dez, quinze livros de uma vez eu achava que finalmente tinha encontrado, de verdade, o príncipe encantado. Imagina! Tudo o que eu queria. E devo a ele a abertura desta Locadora. O casamento virou uma boa amizade, mas sempre vou ter de agradecer a força que veio dele e que me trouxe até aqui. Obrigada você.
Mas toda esta falação vem da necessidade de dizer sobre uma matéria lida no sábado, dia 18 no Prosa, do Jornal O Globo: José Castello escreveu sobre Bartolomeu Campos Queirós, e eu encontrei o texto que eu precisava para dizer sobre um livro infantil do autor: FACA AFIADA. Fazia tempos que eu queria escrever sobre ele, mas precisei de Castello para entender melhor de que maneira o autor chegara a escrita do livro.
Deus, como ele escreve bonito! A escrita é sensível, poética, perfeita e dura. Não a li, embora ela seja, como uma história para crianças. Conta de uma família onde encontramos pobreza, mas proximidade, e aparentemente amor, cuidado, compreensão, mas na verdade chegamos a um rito de passagem, uma criança entrando bruscamente no mundo dos adultos, onde as coisas nem sempre são o que parecem ser. A quebra da imagem de perfeição dos pais, apesar da pobreza. A história corta, fere, dói. E transcrevo aqui o final do texto de Castello, pedindo desculpas por copiá-lo assim “ipsis litteris”, mas eu não saberia, nem no meu sonho de grandeza mais absurdo fazê-lo pelas minhas próprias palavras: - “Via Bartolomeu a escrita como uma rasteira que o escritor aplica ao leitor. Você acha que sabe isso e aquilo, acha que pensa aquilo e aquilo outro. Mas, ao ler uma ficção, ou um poema, seu mundo despenca”. Esta é a exata sensação que se tem ao ler FACA AFIADA, mas eu o indico, maravilhada, a todos aqueles que não perderiam por nada uma bela escrita numa história onde o final nos deixa tontos, estupefatos. Essa é a prova maior de que ele atingiu exatamente o que pregava: “Nosso real e, muitas vezes mais fantástico que a fantasia”.
Bartolomeu Campos Queirós faleceu em janeiro de 2012, aos 67 anos, e eu particularmente, sentirei falta de sua escrita.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

27/08/2012- DIA DO PSICÓLOGO

Sou uma criatura complicada, poucas pessoas percebem, afinal falo demais, dando a impressão de que tiro a vida de letra. Não é verdade. O mais das vezes olho à minha volta e acho tudo muito complicado, mil vezes me pergunto por que é tudo tão difícil?
E descobrindo que hoje é dia do psicólogo, achei que devia dizer obrigada às psicólogas que já me ajudaram, e que certamente ainda me ajudarão a entender, a seguir em frente, a descobrir que mesmo quando a vida parece bem difícil de carregar, sempre posso lembrar-me delas e com isso ficar mais uma vez animadinha  com a certeza de que não estou só.
Na verdade estou aqui para dizer sobre os livros que li e quem sabe levar outras pessoas que um dia, sabe-se lá quando, passarem por aqui, a se interessarem por eles, por isso hoje escolhi o Dr. Irvin D.Yalom e seu livro OS DESAFIOS DA TERAPIA para indicar àquelas pessoas que ainda têm tanta resistência de dividir o que incomoda com estas pessoas que nos escutam com tanto carinho.
Neste livro, que serve para todos, pacientes e terapeutas vemos Yalom dizendo inicialmente sobre ele mesmo, sobre há quanto tempo atende pessoas, sobre o envelhecimento e sua preocupação a respeito. Ele nos diz que seus pacientes não o deixam esquecer-se de que está envelhecendo, e de certa maneira ele pensa na morte e numa forma de deixar alguma coisa às gerações futuras de terapeutas. Há uma clara preocupação com o “onde é que isso vai parar?”, afinal os psicólogos clínicos enfrentam as pressões financeiras que muitas vezes os obrigam a enveredar por caminhos que talvez não quisessem escolher, afinal os planos de saúde não reembolsam grandes gastos com terapia, e por vezes eles são obrigados a se desviarem, optando por uma terapia breve e desta forma reembolsável. Mas ele tem fé de que todo este medo não se materialize,  e que os psicólogos continuem com o seu compromisso com a terapia pelo tanto que amam a profissão e com os motivos que os levam a optarem por ela.
O autor tem uma cultura geral muito vasta, e lê-lo é mais do que saber sobre terapia e terapeutas. Ele nos remete a vários autores como Rainer Maria Rilke (Cartas a Um Jovem Poeta),  a Karen Horney uma autora que os jovens terapeutas podem não conhecer, volta a Schopenhauer, e Hermann Hesse, enfim, dá uma vontade de ler ou de reler todos aqueles aos quais ele se refere.
E o autor segue orientando os terapeutas, mostrando aos pacientes o quanto eles são importantes para ele, para eles.
Hoje então, dia do psicólogo para você Luciana, e para você Priscilla que talvez nunca leiam isto eu deixo um beijo e o meu maior agradecimento pelo carinho que sempre tiveram comigo e com os meus pequenos e grandes demônios.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Se o assunto tenta ser sadomasoquismo, então acho que chegou a hora de pegar mais pesado

A discussão sobre CINQUENTA TONS... ainda segue, os jornais nos dizem que não sabemos o que perdemos enquanto não lemos o livro, (ou os livros), afinal vêm aí mais dois deles, e eu sigo indignada. Não porque o livro seja ruim. Não é. Mas o assunto é polêmico, obscuro, não faz parte das conversas mais comuns entre amigas, nunca sabemos ou saberemos, eu penso, quem de nós já experimentou, de alguma forma uma experiência destas, mas já falei sobre “A História de Ó”, que é um clássico da literatura erótica, que até mesmo o Guido Crepax eternizou num livro em quadrinhos bastante cuidado, e que até já fez parte do acervo desta Locadora. Mas existem dois outros, ambos de uma autora norte-americana chamada Laura Reese que já “rodam”faz tempo por aqui: “FALSA SUBMISSÃO” e DESEJO DE PÂNICO”.
Em FALSA SUBMISSÃO,  a protagonista Nora Tibbs é jornalista e resolve abandonar momentaneamente a profissão para ir em busca de vingança para sua irmã mais nova Frances que é encontrada morta em seu apartamento, brutalizada e torturada. Nora tem certeza de que sabe quem é seu assassino, Michael M., um professor de música com o qual sua irmã se envolvera.  Ao encontrar o diário da irmã ela vê que o homem se envolvera com sua irmã, levando-a iniciar uma jornada incondicional de submissão cujo final foi a morte.
E nossa heroína acredita que poderá fazê-lo admitir seu crime aproximando-se dele e deixando-se levar ao mundo enlouquecido que anteriormente ele  oferecera à sua irmã.  E eis que de repente ela acaba entrando num jogo perigoso onde os limites para a perversidade e a perversão são cada vez menores, e onde a cada momento ela se vê mais e mais enredada pelo magnetismo do Sr. M.
O livro, quando do lançamento encontrava-se no gênero de suspense, mas ia muito além disso.  Inquietante, obsessivo, acompanhamos Nora, que em busca de sua vingança acaba penetrando num mundo que ela jamais imaginara, e pior, descobre-se participando dos jogos eróticos de Michael descobrindo o prazer da submissão, da dor, da degradação, enfim, sua vingança a leva a lugares onde nunca esteve nem em seus sonhos mais estranhos. Nora jamais acreditaria se lhe dissessem que uma mulher tão independente, tão segura de si, e que anteriormente sempre fora a dominante em suas relações pudesse chegar até onde Michael M. a leva. Este sim, é um livro sobre sadomasoquismo. Esse dói!

DESEJO DE PÂNICO – Segundo romance da mesma autora, e caminhando nos mesmos moldes.
Carly, a personagem principal é encontrada quase morta numa estrada, seu corpo ferido, quebrado, seu rosto destruído. Ninguém a procura no hospital, os médicos refazem sua face como imaginam. Sua memória apagou-se, ela não sabe quem é, o que houve, e nem que lhe causou todos aqueles ferimentos. Tinha dezessete anos, muitas cicatrizes, nenhuma lembrança. Os médicos remendam seu corpo, mas nunca conseguiram chegar à sua mente.  Aos vinte anos sai do hospital, viaja, retoma sua vida, estuda Inglês, mas acaba entrando para o ramo dos restaurantes, torna-se chef num restaurante famoso, mas é uma pessoa solitária. Pergunta-se constantemente quem foi, e porque motivo nunca foi procurada por ninguém, não tem amizades profundas, e não entende o fato de não querer sair do norte das Califórnia. Sua interação com as pessoas é superficial,  embora todos gostem dela. Durante anos procurou respostas para seus desconfortos: não gosta de pisos de tijolos, não sai com homens grandalhões, não gosta lugares fechados ou escuros.
Até que encontra numa revista, a Wine Spectator, a foto de um homem alto, louro, de pé num parreiral. É um homem grande, forte, e que parece à vontade apresentando a vinícola da família. Há ainda uma foto anterior, de vinte anos para trás, onde o mesmo homem, mais jovem, o rosto sem marcas, de alguma forma trás para ela a sensação de, ele fez parte de seu passado, e de sua história. Ele é o dono da vinícola Byblos, e a administra com a família. Seu nome: James McGuane. Ao saber que eles estão em busca de uma nova chef de cuisine, candidata-se ao cargo, mudando-se para Napa Valley em busca de sua história.
Lá chegando, acaba se envolvendo sexualmente com James, descobrindo nele um dominador e o provável culpado por tudo o que houve em sua vida. E começa com ele um jogo de dominação que cresce a cada momento, envolvendo os dois numa rede de intrigas e de jogos sexuais perigosos que podem levá-los mais uma vez ao crime ou a morte.
Bem, nestes dois livros encontro o que realmente chamo de práticas de sadomasoquismo, e que eu acho fariam que Ana achasse Christian Grey quase um santo.
E eu prometo que agora paro de dizer sobre sadomasoquismo, mas não podia deixar de fazê-lo antes de apresentar estes dois livros a vocês.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Nelson Rodrigues: 100 anos


Sabemos que no dia 23 de agosto, na próxima quinta-feira, Nelson Rodrigues faria 100 anos, e multiplicam-se as comemorações, e eu aqui fico pensando em tudo de incrível que ele escreveu. Sua obra é vastíssima, e esta locadora tem quase tudo que ele escreveu, mas quantas vezes seus livros saem da prateleira? Acho melancólico que tantas pessoas tenham a enorme dificuldade de ler os autores brasileiros; não tenho absolutamente nada contra os estrangeiros, ao contrário, gosto de muitos, mas nestes quase 22 anos pude observar que muitos dos nossos enormes talentos literários são muito pouco procurados. Entre eles o nosso Nelson Rodrigues. E ele é mais que demais.
Estou aqui na minha frente com Flor de Obsessão (as 1000 melhores frases de Nelson Rodrigues) e escolhi algumas das que mais gosto para partilhar com vocês. Quem sabe você gosta de alguma, acaba se lembrando de uma das muitas coisas escritas por ele, e conta para uma amiga, que conta para outra e, de repente tudo o que eu tenho dele volta a sair da prateleira como na época que a Companhia das Letras começou a  reeditar sua obra.
Neste livro estão várias frases fantásticas, escolhi algumas e agora as divido com você. Experimente, leia... quem sabe você gosta, e sem que seja preciso fazer 100 anos para ser lembrado,  o grande Nelson torne a ir passear fora das minhas prateleiras?
Amigo-  “Se Deus me intimasse a optar entre o Hélio Pellegrino e a humanidade, eu daria a seguinte e fulminante resposta: - “Morra a humanidade”. E, com isso, ficaria claro para mim, o amigo é o grande acontecimento, e repito: - só o amigo existe e o resto é paisagem.”
Brasil-   “O Brasil é muito impopular no Brasil.”
Canalha - “No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O Otto Lara está certo. O mineiro só é solidário no câncer.”
Desconfiança-  “Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.”
Dinheiro-  “Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.”
Futebol – “ O futebol  é o mais falado e o mais pornográfico dos esportes. Ele se nutre da pornografia como uma planta de luz.”
Moralismo – “Minhas peças têm um moralismo agressivo, Nos meus textos, o desejo é triste, a volúpia é trágica e o crime é o próprio inferno. O espectador vai para casa apavorado com todos os seus pecados passados, presentes e futuros. Numa época em que a maioria se comporta sexualmente como vira-latas, eu transformo um simples beijo numa abjeção eterna.”
Creio que eu poderia ficar a noite toda  aqui, partilhando com você todas as frases dele que gosto, e talvez elas nem sejam aquelas que você gosta, mas não dá para negar que este homem, que no próximo dia 23 faria 100 anos e que não cansa de nos surpreender, é o mais moderno dos homens.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Dizendo um pouco sobre livros


Vez em quando, um livro retorna à Locadora e percebo que ele esteve fora por muito tempo. E quem me conhece sabe como eu sinto saudade de livro daí, quando percebo lá estou eu, relendo trechos, lembrando da história. Algumas vezes o levo para casa e começo de verdade a relê-lo, mas atualmente isto não é muito fácil, afinal, à minha direita há sempre pelo menos mais uns 20 novinhos em folha precisando, urgentemente, da minha atenção e aí vem a culpa, releio o livro rapidamente, ou fico apenas com alguns trechos dos quais gostei mais. Hoje, depois de muito tempo, uns meses, penso, eis que retornou “A Descoberta do Mundo” de Clarice Lispector.
Fiz o que fazemos sempre, passei álcool na capa para guardá-lo, mas não resisti, e lá fui eu: li uma crônica, outra, e já estava quase querendo carregá-lo comigo quando encontrei uma bem pequenininha... linda demais, e resolvi então colocá-la aqui para que você, alguém a leia comigo.
ENIGMA
            Ela estava vestida de uniforme listrado de empregada, mas falava como dona-de-casa. Viu-me subir as escadas cheia de embrulhos e parando para sentar nos degraus – os dois elevadores estavam enguiçados. Ela morava no quinto andar, eu no sétimo. Subiu comigo segurando alguns dos meus embrulhos numa das mãos, e na outra o leite que comprara. Quando chegou ao quinto andar, botou o leite em casa dela entrando pela porta de serviço, depois fez questão de segurar meus embrulhos e de subir comigo até o sétimo.
Que mistério era esse: falava como dona-de-casa, seu rosto era o de dona-de-casa, e no entanto estava uniformizada. Sabia do incêndio que eu sofrera, imaginava a dor que eu sentira, e disse: mais vale a pena sentir dor do que não sentir nada.
- tem pessoas – acrescentou – que nunca ficam nem deprimidas, e não sabem o que perdem.
            Explicou-me, logo a mim, que a depressão ensina muito.
E - juro – acrescentou o seguinte: “A vida tem que ter um aguilhão, senão a pessoa não vive.” E ela usou a palavra aguilhão, de que eu gosto. 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Dennis Lehanne: Naquele Dia

Acabei de ler o livro "Naquele Dia", de Dennis Lehane e confesso que me decepcionei.
Acostumada com o gênero de Paciente 67 e Sobre Meninos e Lobos, este livro foi decepcionante.
Em primeiro lugar, ele é muito extenso, quase 700 páginas onde em várias passagens há descrições tão detalhadas que se torna muito chato, algo do tipo "encher linguiça".
Depois, este livro é feito de vários núcleos, várias estórias paralelas que me lembra uma novela da Globo, e até que tudo seja costurado para o final,  muitas passagens se tornam confusas.
Enfim, ficou muito a desejar, e estarei avidamente esperando o novo romance deste escritor.
Até a próxima!!


RoPertile
http://ropertile.blogspot.com

sábado, 15 de maio de 2010

PACIENTE 67

Preconceitos...

Existem alguns escritores que "amamos de paixão" e por conta disto, temos o hábito de procurar avidamente seus livros ... e apenas seus livros.

Mês passado, resolvi inovar e permiti que Iracema escolhesse um livro para eu ler. Na realidade, eu não estava com muita vontade de ficar navegando no site da locadora em busca de um título que me agradasse.

Iracema então escolheu um autor que eu jamais tinha lido, Denis Lehande. Ela me enviou o "Paciente 67". Demorei quase quinze dias para pegar no livro, ficava olhando para ele com aquela vontade de trocar sem ao menos ler as primeiras páginas.
Achei isso uma grande bobagem, afinal eu tinha pedido para ela escolher um livro!!!

(Denis Lehande)


Meus amigos...
Depois de passadas as primeiras páginas, não consegui mais soltar o livro.
O enredo é envolvente demais, um suspense muito bem escrito, que prende totalmente a nossa atenção.
Vamos ficando ansiosos para saber do destino de nosso protagonista, um delegado federal que serviu na guerra e que foi em uma missão no Hospital psiquiátrico Ashecliffe, que abriga assassinos psicóticos.
O final é supreendente, fora de tudo aquilo que pensaríamos que acontecesse, mas cujas pequenas pistas foram jogadas durante todo o livro.
Para voces sentirem como é a trama, as últimas páginas do livro foram lidas durante meu horário de trabalho, simplesmente porque nao consegui largar até ler a última palavra do livro.
Nesta segunda Billy já vem trazer outro suspense deste autor- Sobre Meninos e Lobos, que se for como o primeiro, será devorado em uma semana!
Para quem gosta, assim como eu, de ler um triller muito bem feito, não deixe de ler "Paciente 67".
Aproveite que estou devolvendo segunda!
Um abraço a todos
Até a próxima!!!

RoPertile

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

FERNANDO PESSOA


FERNANDO ANTONIO NOGUEIRA PESSOA. Hoje achei que deveria dizer alguma coisa sobre este poeta português que tem a capacidade incrível de metamorfosear-se em outros tantos. A ânsia de pluralidade encontrada em todos os artistas, escritores e poetas de seu tempo, me parece maior em Pessoa. Ele precisou afastar-se de seu próprio "eu", e mergulhou em outros tantos "eus" para, talvez, entender melhor o que se passava à sua volta.
Cada um de seus outros "eus" via as coisas à sua própria maneira, aumentando dessa forma sua capacidade de consciência do mundo, mas, quando olho de um outro ângulo, e a partir das palavras do próprio poeta o que percebo é que ainda criança o poeta encontrou uma forma de jamais estar sozinho : "Desde criança tive tendência para criar em meu torno um mundo fictício de amigos e conhecidos que nunca existiram. Não sei se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos". Talvez esta tenha sido a sua maneira de achar, não sua outra metade, como alguns já devem ter lido no Banquete - Platão, mas suas muitas metades, e cada uma delas com a capacidade de torná-lo inteiro.
E vou transcrever abaixo uma poesia encontrada em suas OBRAS COMPLETAS que mostra que Pessoa precisou repartir-se para unificar-se, para buscar respostas, para formular perguntas, para conhecer-se, para caminhar na fusão do eu com o mundo. E ele nos mostrou sua grandeza, clareia ainda hoje nossos caminhos e embeleza nossas existências, transformando-nos de um ou de outro modo, à partir de sua absoluta capacidade de transformar-se. O nome da poesia?

EROS E PSIQUE
Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A uem só despertaria
Um infante que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
vencer o mal e o bem
Antes que, já libertado
Deixasse o caminho errado
Por o que a Princesa vem

A Princesa adormecida
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida
verde, uma grinalda de hera.

longe o Infante, esforçado
Sem saber que intuito tem,
rompe o caminho fadado.
Ele dela ignorado
Ela para ele é ninguém

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro
E, vencendo estrada e muro
Chega onde em sono ela mora

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra a hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.







terça-feira, 20 de outubro de 2009

Pedaço do Meu Coração





Peter Robinson, e eu o conheci através da minha filhinha emprestada, mas que eu amo de paixão Ana Paula que foi a associada nº 1 desta locadora. A primeira pessoa que acreditou que seria possível, e eis-nos aqui, juntas, até hoje. mas chega de divagar, foi ela quem me apresentou o autor, e olha que deveria ser eu a apresentar autores a ela, mas nem sempre é desse jeito que acontece. Ela o trouxe, e eu me apaixonei. Adoro policiais, e por ler demais, em alguns momentos mais do que gostar, eu acabo precisando deles. E, como minha amiga P.D.James, nunca considerei o gênero policial como subliteratura, mas quando saímos de vários livros cuja leitura, por motivos vários, é mais demorada, e nos exige muito, nada como um ótimo policial para ajudar a relaxar.
E este autor vale muito a pena. Acabei de ler: PEDAÇO DO MEU CORAÇÃO, e a história nos diz sobre dois crimes acontecidos num grande intervalo de tempo, e que acabam se interligando. E enquanto acompanhamos os dois detetives separados por gerações, com métodos e visões diferentes em relação à vida, mas ambos criteriosos em seus trabalhos, e igualmente dedicados, temos o prazer passear pela história do começo das grande bandas de rock: Pink Floyd, Led Zeppelin, e outras que trazem enorme preocupação ao nosso detetive de 1969, pai de uma filha adolescente que se depara, pela primeira vez, com a mistura explosiva de "sexo, drogas e rock'n' roll'.
Acredito que, uma vez começado, dificilmente você conseguirá largá-lo antes do término dessa jornada inesquecível que desvenda o lado oculto e violento da geração paz, amor e harmonia.
E aproveite para ler também, do mesmo autor: BRINCANDO COM FOGO e PERTO DE CASA

domingo, 18 de outubro de 2009

João Ubaldo Ribeiro domingo 18/10/2009


Acabo de ler a crônica do João Ubaldo no Globo, e mais uma vez fico aqui morrendo de inveja por não saber escrever como ele, e como outros tantos. Ele traduziu o meu sentimento, e colocou num texto tudo o que eu gostaria de dizer sobre o que ele chama de "máquinas de ler livros", citando o "Kindle".

Como alguém que ama livros, ama ler, e por isso mesmo vem há 18 anos resistindo como dona de uma Locadora de livros, acho também bastante estranha a conversa de que essa inovação é incrível. Não sei, mas o que me parece realmente incrível é pegar o livro na mão, sentir a textura das páginas, olha a capa e ficar ansiosa para abri-lo e começar a viagem. Gosto do cheiro deles. Velhos ou novos o cheiro dos livros faz as vezes de afrodisíaco. Gosto de entrar nas livrarias, nos sebos e folheá-los, ler as orelhas, gosto do peso, do formato, fico assustada quando penso que a ideia é acabar com o livro físico.

Como diz Ubaldo: até aqui, para lermos "precisávamos no máximo de uns óculos" , eis que o tal progresso nos apresenta um aparelhinho cujo custo, pelo menos a princípio, (e este princípio pode demorar) será apenas para alguns, quando hoje "basta apenas saber ler".

Trabalhando há tanto tempo numa locadora de livros, sei das dificuldades. Não digo que o brasileiro não gosta de ler, ele apenas não tem o hábito, mas foi, e ainda é para aqueles que gostam, e quem gosta de ler, gosta mesmo, e para aqueles que por vezes não podem comprar todos os livros que desejam, que eu achei que deveria abrir um negócio, onde eu amaria trabalhar, e onde as pessoas pudessem ter acesso a livros novos (as bibliotecas nem sempre, ou quase nunca têm os lançamentos), e antigos por um valor que estivesse ao alcance delas. E eu juro, para algumas pessoas, mesmo dessa maneira, por vezes, é um sacrifício, e elas mantém o serviço porque gostam muuuiiito de ler. O aparelhinho certamente não estaria ao alcance delas.

Sabemos que esta mudança não acontecerá da noite para o dia, mas, e ainda lembrando da crônica, João Ubaldo nos diz desse novo tempo de se trabalhar em casa que a princípio parece tão confortável, mas que nos tira o prazer de conhecer novas gentes, de tocar nas pessoas. O "progresso" tem tornado mais escasso o contato humano. Hoje estamos mesmo cada vez mais ligados às redes de relacionamento, webcans e MSN, e agora eis que nos chega mais uma novidade: ler numa maquininha. Talvez eu seja realmente uma senhorinha retrógrada e indignada, mas estou feliz porque percebo que estou em ótima companhia.

Como comecei dizendo lá em cima: queria muito escrever bem como ele, mas não foi nesta encarnação; daí, sugiro que procurem o jornal deste domingo 18/10/09, não importa se você leu isto hoje, ou daqui a muitos dias, a crônica, para um bom leitor, é imperdível. Até amanhã.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

CARTAS DE AMOR


Como eu disse ontem, de agora em diante escreverei aqui todos os dias. Não apenas sobre os livros que leio, e que são lançamentos, mas também sobre aqueles que na verdade são eternos. O livro de hoje foi publicado pela primeira vez em 1690: CARTAS DE AMOR.
As cartas foram atribuídas a SOROR MARIANA ALCOFORADO apenas após o ano de 1810, antes disso, apesar de terem sido publicadas especulava-se quem as teria escrito: Racine? Guilleragues? Ou Mariana Alcoforado? O que sabemos é que as CARTAS têm hoje um lugar consagrado na história da literatura.
RAINER MARIA RILKE nos deixa o seguinte comentário: "Estas cinco cartas foram capazes, pela primeira vez, de desenhar os limites do amor da mulher, sem excessos, sem exagero e sem complacência, como se escritas pela mão de uma sibila... Ninguém permanecerá cego ao que demonstra o exemplo dessa amante suprema e seu deplorável parceiro, ninguém deixará de compreender o que revela a relação desses dois, toda a força, toda a virtude que, do lado da mulher, vem se opor à completa insuficiência do homem em matéria de amor."
Deixo aqui para você parte da primeira carta, e acredito que, se começar a lê-la, não deixará de procurar pelo final da mesma, e pelas outras quatro.

PRIMEIRA CARTA
Pense no quanto você não conseguiu prever o que aconteceria, meu amor. Quanta infelicidade! Fomos traídos por falsas esperanças. A paixão em que você depositava tantos planos de alegria não lhe causa hoje senão extrema angústia, só comparável à própria crueldade da ausência que ela mesma provoca.
Será que essa ausência - à qual minha dor, por mais complexa que seja, não consegue dar um nome amargo o suficiente -, será que me privará para sempre de olhar nesses olhos em que eu via tanto amor, que me moviam, que me enchiam de alegria, que me valiam por todas as coisas e que, enfim, me bastavam?
Eis que os meus é que foram privados da única luz que os animava. Não lhes resta senão lágrimas. E eu não os tenho empregado em nenhum outro objetivo que o deste choro ininterrupto - depois de compreender que você se decidiu por um afastamento tão insuportável para mim que me fará morrer em pouco tempo.
Mas parece que eu tenho uma fixação qualquer até mesmo por essa infelicidade de que você é a única causa. Assim que o vi, entreguei-lhe minha vida; e sinto mesmo algum prazer em sacrificá-la por você.
Mil vezes ao dia envio na sua direção os meus suspiros; eles procuram você por todos os lugares e, como recompensa para tanta ansiedade, não me trazem senão a mais franca advertência da minha má sorte - ela é que é cruel o bastante para não tolerar que eu me iluda, e que me diz a todo momento: pare, Mariana, sua louca, pare de se consumir em vão, de procurar por um amante que você não verá nunca mais, que atravessou os mares para fugir de você, que está na França mergulhado em prazeres, que, não pensa um único instante nessas sua dores, e que, ingrato, dispensa todo esse seu delírio...